sábado, agosto 16, 2008

A todas as horas e minutos que vão correndo tento dar um sentido ao que vivo. Se calhar devia ter este tipo de pensamento noutra fase da vida, mas não, surgiu agora.
O sentido que procuro é a explicação do que não se explica:acontece...
O meu pai, de quem já falei e escrevi durante toda a vida que tenho tido, com sentido ou não, é um homem interessante de se conhecer, de se ouvir e de se dar sentido na nossa vida.
Filho mais novo de 7 irmãos(fora os ameaços, como diz ele), foi o menino das "bruxas" lá de casa, sempre protegido pelas duas irmãs antagónicas rossantes ao incompatível.De miúdo foi tendo mais qualquer coisita do que os irmãos, pois sendo o mais novo facilitava-se as vontaditas...
Mas os tempos eram outros, e logo que a 4ªclasse foi concluída, emprego era esperado para o petiz.Inacreditável nos dias de hoje!Imagino o meu pai com a idade dos meus filhos (o João já tem 12 anos)a sair de casa para ir trabalhar!
E lá foi, destemido no corpito e na personalidade forte, sempre com grande sentido de justiça...
Juntamente com os irmãos mais velhos, foi-se fazendo homem, quando apenas deveria ser apenas uma criança.
Mais tarde foi estudar de noite.Trabalhava de dia e depois aparecia na escola para estudar o que sempre sonhou. Épocas passadas, estranhas aos nossos olhos e difíceis de se viver.
A vida foi-lhe correndo, até que conhece a minha mãe.Deles nada posso contar...ainda hoje segredam entre eles palavras de amor e paixão... sei que o meu pai ainda vai contar essa história...e já lá vão quase 41 anos de casados mais os 5 de namoro...
Casou, depois da vinda de Angola, onde esteve quase 3 anos em zona de guerra (só podia...e sorte teve por voltar),e por entre dificuldades, desgostos e gostos, sorrisos e choros, cresceu na vida, tornando-se marido, pai e depois avô.
Pelo caminho vive momentos que conta mais tarde por entre risos nas coisas boas e poucas palavras nas más...
Deu um pontapé, mais uma vez, à morte que o rondava, quando o coração lhe prega a partida, e agarra-se à vida como ninguém...e vence!
Torna-se o avô das caminhadas e comida saudável, sempre a reclamar com todos por não termos cuidados nenhuns!Porque "ao fim ao cabo", somos filhos e netos de cardíacos e temos de ter cuidado!
Juntamo-nos semanalmente em família e vamos ouvindo histórias de outros tempos contadas por ele.Revejo o passado através do olhos do meu pai e enterneço-me por ainda lhe ouvir as histórias, que agora conta aos netos, com atenção e devoção de outrora. Olho para o meu irmão e percebo que também ele relembra os tempos em que pela primeira vez as ouvia...
Entra na fase da vida tardia com um sorriso:reforma-se sem luxos.Continua a viver modestamente, mas com uma alegria e vontade de estar, de ajudar, de aprender coisas novas e ensinar os mais novos. A casa transforma-se numa mistura de berçário e ATL, idas e vindas ora da escola ora da ginástica ora da música...é a nova função:avô a tempo inteiro!E, claro está, a minha mãe sempre na retaguarda...porque atrás de um grande homem...sabemos nós que está a minha mãe!
Dedica-se às cantorias, participando activamente no coro amador da Academia,onde canta grandes mestres de sempre:Vivaldi, Bach, Haendel e os portugueses que mais gosta...Intervenção...Cantigas de Maio...
Mas de repente tudo pára!Começa a andar sempre triste e dorido...não sabe que tem...e as nuvens negras aproximam-se sem ninguém se aperceber ,até que nos cai esta tempestade!
"Uma bomba que me caiu em cima", disse ele...
Vejo o meu pai todos os dias a agarrar-se à esperança de que tudo vai correr pelo melhor, sabendo que a luta vai ser difícil, renhida...e está em sofrimento...e nós nada podemos fazer para o ajudar.
O meu pai tem 67 anos.
Tem tido uma vida cheia de muitas coisas e de tantas histórias que ainda não contou aos mais pequenos.
E ainda tem muita coisa para ver, conhecer e aprender para nos ensinar e ajudar...e para dar sentido a todos os minutos da minha vida, porque sem ele perco o meu rumo...

1 comentário:

Gandin Tondela disse...

Se já não conhecesse, ansiava por conhecer...
Tens o dom de AMAR, mas sempre mascarado... deixa cair a máscara mais vezes... serás mais feliz!