domingo, junho 17, 2018

ser esponja

sou uma esponja.
viver assim rodeada de pessoas,de gente que me entra no coração provocou em mim o efeito esponja.
não quero e por vezes não posso,mas o que eles olham,o que eles sentem,o que eles vivem,passa por mim e eu absorvo.
o bem, as boas coisas,os sorrisos e gargalhas são alimentos esponjosos que me fazem adormecer em sonhos.
mas o que magoa,o que os faz sofrer, entram na esponja e endurecem-me.
fico sem saber o que posso fazer,porque por vezes e tantas são elas,nada posso desenhar para mudar,para atenuar,para resolver.
a vida dos outros,das outras,da gente que me entra no coração, é a vida
eu sou só a esponja.

sábado, maio 05, 2018

fantasmas de mim

escrever por escrever nem sempre me apetece.
mas faz me mal não o fazer.faz-me esquecer o que me leva a caminhar neste caminho.
ao longo do tempo sempre achei que não me havia de preocupar com a velhice.
sempre não o quis fazer.
mas começo a interiorizar o que o exterior me mostra e não gosto.
as rugas começam a mostrar se, não só as que marcam os risos da vida,mas as que mostram as tristezas de mortes,as preocupações que se avistam com o crescimento dos meus filhos, as que me vincam no medo de perder a vida que sempre tive.
o corpo já se vai ressentindo,não acompanha o que por vezes desejo e quero,e sem querer o corpo está a abafar a mente que sempre achei que ficava nova.
penso e nem sempre gosto do que penso.
sinto a diferença e principalmente sinto o tempo passar e a chegar a tempos que ainda há tão pouco achei distantes.
o meio século, que achava um número feliz de se fazer,de se ter, de se ter vivido, tornou se um fantasma assustador,um fantasma avassalador,um fantasma que me aspira para um redopio que apenas pressinto.
estou assustada por mim, pelo meu corpo,pelo meu pensamento.
afinal não quero continuar a crescer,

quarta-feira, janeiro 31, 2018

maternidade

nunca brinquei com bonecas.
nem me lembro de as ter, apesar de me dizerem que as tive.
lembro-me dos carros que o meu pai me trazia,de correr e saltar, de andar pelos muros.
depois vieram os livros.mas não gostava de histórias de fadas e muito menos de bonecas.
os nenucos,quase que pequenos monstros ainda apareceram mas nunca lhes liguei.
gostava das barriguitas pretas.só das pretas porque não eram parecidas com os meninos e meninas que conhecia.
e sem bonecas,cresci até eu própria ser a boneca do bolo.
a boneca de branco,cor de pele que eu nem gostava e a pele até podia ter sido outra.
casei.e logo vieram as perguntas,os comentários:e filhos,tudo se cria,é uma benção,é para isso que se cresce.
ok.
quando o meu filho nasceu foi um carrocel descontrolado de tudo.não queria estar grávida, e ele nasceu tão depressa que nem deu tempo de preparar tudo como as perguntas e os comentários diziam.
e de repente estava ele ali,ao meu lado e eu sem perceber como era .como vestir,como pegar,como olhar.
desconfiada olhei para o meu braço que o amparava e ele ali estava:minúsculo,magrito,sem sobrancelhas, quase sem cabelo e de olhos fechados.
mas foi o nariz,o nariz que me fez apaixonar e ser mãe naquele momento de solidão que tivemos.
sózinhos ainda estávamos ligados, e ele empinou o nariz para me dizer:gostas de bonecas?não,mas agora eu estou aqui e tens de brincar comigo.
brincar foi o viver todos aqueles momentos que posso esquecer em palavras e em imagens,mas que sinto embrulhados em mim
foi a maternidade.foi aquilo que nunca mais me deixou ser só eu,e passou a ser nós.
quando a leonor, a filha ansiada por mim,mais do que a mim própria surgiu, a maternidade já cá andava,mas foi a magia que me encantou:era eu em sonhos que ali estava,era a boneca que eu nunca tinha tido,nem gostado,era a barriguita rosada.
se tivesse falado,sei o que me teria dito,gosto de ti, mãe.gosto de ti e quero abraçar-te.
depois cantaria para mim,para me embalar a dor física que esqueci na paixão que ali nasceu.
foi a maternidade.foi aquilo que nunca mais me deixou ser só eu,e passou a ser nós.
duas vezes instalada em mim,duas vezes é para sempre,para a vida.
o tempo passou, as noites nunca mais foram iguais,ainda hoje,passados 21 anos de um, 17 de outro,nunca mais foram de sono leve de ouvir a respiração, as voltas na cama,as vozes que sempre falaram no sussurro das noites.
nunca mais foram.assim como os dias.prendem-me sempre, por momentos,por eternos momentos,por silêncios,por sonoridades,prendem-me porque a maternidade está ali.
não se explica,não se pinta,não se canta,não se escreve.está ali.
mas o tempo continua num tic tac obsoleto descritivo e ora corre ora caminha devagar e de repente dou por mim a perder a maternidade.
fiquei incrédula comigo.eu?maternidade a perder-se?não quero,não pode ser.
sim.
percebo que outra coisa,outro sentimento,outro quê,outro olhar,outro pensar vai aparecendo e percebo que me divorcio dos meus nós,dos meus eu e ele,dos meus eu e ela.
a alegria da maternidade está a entristecer-me.parece nua e transparente porque não tem cor.
talvez seja assim.talvez agora tenha de parar a maternidade de nós, esperando pela maternidade deles.
de repente pareceu-me isso:por entre sonhos da minha maternidade,vi-me a sentir outras maternidades que serão minhas,mas o nós será deles.
 ...não está a ser fácil...

quinta-feira, janeiro 18, 2018

O frio de morte

está frio.
sinto-o a envolver-me e não me deixa aquecer.
sempre fui assim.de frio,de muito frio,de interiorizar o frio.
mas este é diferente.
o tempo aliou-se ao frio e a vida desmembrada tornou-se acha gelada.
e sinto me assustada com este frio.
olho ao redor e vejo-o a aproximar-se de mim.
fecho os olhos e o gelo esfaqueia-me o peito.
e não consigo aquecer.
na verdade, sinto a morte.
morte do corpo, ao longe,que me acena por vezes e eu finjo que não vejo
morte do meu ser,em que a vejo irónica a tapar os olhos,os ouvidos, a boca...deixa de ser.morre.
morte do sentir, como a vejo gracejar de mim.como a vejo aqui tão perto a destruir-me o que não julgo ter, a alma que me faz amar,a alma que me faz sentir paixão. a alma.
é este o frio.
este frio que nasce todos os dias.
que me apanhou de surpresa.
o frio que nunca imaginei sentir.para já.
ainda é cedo.
está frio.

sexta-feira, dezembro 29, 2017

natal _17

durante anos esperei pelo natal.
esperei por tudo o que implicava,prendas,festa,dias sem escola,estarmos todos juntos.
durante anos esperei e sempre consegui concretizar aquela espera.
ao longo dos anos fui deixando de esperar, e transformei essa espera numa ânsia risonha de união,já sem as prendas,já sem grande festa,já sem a meninice.
o tempo vai passando e sem querer,o natal transformou-se no meu dia a dia:estar bem.
com o tempo já passado e a vida a crescer,a minha como adulta e as que cresceram dentro de mim a caminhar para longe,chego a estes dias e o desânimo aparece.
não o transpareço.sorrio.
o tempo arranhou-me o coração e hoje não sei o que são prendas,o consumismo consumiu todos, a festa já é o alimentar de momentos gastronómicos e, não estamos.
estar com...estar sem...
o meu pai foi-se.não recupero a perda,não consigo olhar para todos sem o ver.
os filhos, a sucessão logica de mim, juntamente comigo construíram muros que nos separam até um dia.
perdi-me na responsabilidade de tantas coisas, perdi-me em pensar no bem do todos e de tudo, que de repente estou perdida e já não sei se ame, se espere, se ânsie .
já não sei se devo fechar os olhos e deixar tudo ir,tudo continuar.

quarta-feira, dezembro 13, 2017

já não me nasce

tenho uma dor dentro de mim, que de tão grande e profunda,que de tão cortante e ardente,deixei de sentir.
não sei se explicar será a opção,porque não a há e acaba sempre tudo por ser coração,mas a dor que sinto em mim é bem maior do que o de mim posso pensar.
um filho,quando nasce,quando nos aparece, surpreende-nos no sentido da vida e nos sentidos.
conhecemos o cheiro dele,o som do choro,a rugueza das mãos,os contornos de penugem quase inexistente.
aprendemos que é ali que vamos ficar,que é ali que queremos morar,que é ali,naquele momento que percebemos que tudo vai ser igual sendo diferente.
o tempo passa,o choro muda como o tempo,o cheiro muda com a estações e os contornos e rugas fincam-se no corpo e na pedra interior.
e nós estamos ali.eu estive sempre ali. sempre.sempre.
vi sorrisos, vivi-os,vi choros, sofri-os, vi conquistas, vivi as taças e os diplomas.
e o tempo passou, mudando-se e mudando tudo e todos, dando-me mais rugas,menos contornos.
e começaram as perdas que não pensei ter.
perdi o olfacto,pois o cheiro dele já não o conheço,perdi a audição,pois o som das palavras por mim ensinadas e por ele aprendidas,deixei-as de ouvir,perdi a sensibilidade de lhe conhecer as rugas e contornos.
foi-se tudo,o que sempre foi tudo,para ficar-se em nada.
mas a dor é imensa por uma só razão,pressinto-a angustiada e se calhar não.
razão que o amor incondicional é incondicional,mas o amor de gostar estagnou como a agua pantanosa de verões sucessivos sem outonos,invernos e primaveras.
o filho já não me nasce.

domingo, junho 26, 2016

pela morte, pela vida

hoje já andei ao "estalo" com quase toda a gente que me rodeia.gritei,disse o que não devia e tratei todos com 7 pedras na mão.
mas apenas queria parar.parar de pensar e de sentir esta coisa que me amarfanha todos os dias desde que te foste.
por vezes, quando digo, desde que te fostes, não sei se penso em ti pai, não sei se penso em ti, meu filho.
um foi-se pela lei da morte,outro pela lei da vida.
mas apetecia-me tanto, que tanto um como outro me embalassem num baloiço deserto,num local deserto e me deixassem gritar, gritar até não ter voz.
depois, do pai ouviria as palavras de preocupação dele comigo, de me saber triste e desapontada comigo própria,mas também a ajuda para seguir em frente.fazes-me falta,fazes-me tanta falta para eu conseguir andar para a frente.e fazes-me falta porque eras o meu ouvinte.
depois, do filho ouviria palavras de queixume e de uma adolescência a roçar a idade adulta cheia de dúvidas e desencantos,mas também de sonhos escondidos e esquecidos que continuam dentre dele.fazes-me falta, fazes-me tanta falta para eu andar para a frente com o coração apaziguado de ti.e também tu foste o meu ouvinte.
o dia foi sem os dois, um pela morte outro pela vida.
e a solidão ruidosa em mim ficou, e só quero gritar por vocês.